Terça-feira, 13 de Março de 2012

A TERCEIRA VAGA DA CRISE

A TERCEIRA VAGA (do Site:http://informacaoincorrecta.blogspot.com)

 

Não pode ser travado. O mundo da especulação financeira é algo que continua, imparável, apesar das crises. Pode abrandar nas alturas mais complicadas, mas uma vez que a situação ficar estabilizada (não "recuperada", simplesmente "estabilizada"), eis que a especulação recupera o fôlego.

Seria o caso de repensar a nomenclatura Homo sapiens? Talvez seria, mas vamos aos factos.
As primeiras vagas

O nível da especulação financeira mundial subiu para os mesmos patamares de antes da crise.

A primeira vaga, para ser claro, as das hipotecas subprime de 2007-2008: estamos de volta a cerca de um trilião de Dólares por ano, quando o produto interno bruto mundial é de cerca 70 mil milhões de Dólares. O que significa que a economia virtual é quase 15 vezes a economia real: normal, portanto, que a economia virtual tenha um peso maior da real, condicionando esta última.
 
Atrás disso temos uma gigantesca bolha especulativa, cujo real valor é desconhecido; os especialistas tentam quantifica-la há mais de cinco anos, sem sucesso. estão pedindo quase uma década e que mais cedo ou mais tarde chegaram à superfície.

O que sabemos é que cedo ou tarde explodirá, porque é nas naturezas das coisas. 

Primeira vaga. Porque não foi a última. Depois foi a vez da segunda vaga, começada com a especulação dos Títulos dos governos europeus em 2011 e ainda não acabada. Nestes dias os media repetem que a Grécia alcançou o delicado equilíbrio entre PIB e dívida, que o spread está outra vez nos limites, que o pior já passou. Infelizmente, não é assim.
 
Mas isso agora nem interessa. O que interessa é a terceira vaga.


Ganhar tempo
A Federal Reserve e o Banco Central Europeu não fizeram muito neste período: simplesmente ganhar tempo, evitaram o colapso dos grandes bancos, dos grandes investidores institucionais, o chamado "conglomerado" da finança, aqueles que operam por meio dos bancos, com grandes participações nas corporações, nos principais serviços financeiros como seguros e fundos de pensão.

Injectaram no sistema triliões de Dólares e de Euros com taxa de juros quase nulas em troca de Títulos com uma fiabilidade no mínimo suspeita. Estas injecções de liquidez não tiveram como efeito o aumento do crédito, de dinheiro e dos investimentos no sistema de produção: foram concebidas para abrandar durante pelo menos três anos a explosão da bolha. Os Títulos não valem nada (pensem nos Títulos da Grécia, por exemplo), é preciso mantê-los escondidos e a melhor maneira é criar dinheiro de forma que ninguém mexa neles.

É uma corrida desesperada contra o tempo e espera-se que as medidas que foram tomadas contra os Americanos e os Europeus sejam capazes de drenar mais recursos para o sistema financeiro global, passando pelas finanças públicas. É necessária a austeridade, os sacrifícios dos cidadãos: só assim será eventualmente possível para os bancos acumular novos recursos para alimentar o ciclo vicioso que começou um par de décadas atrás.

O problema principal é que a crise é estrutural, por razões que podem ser descritas com bastante rapidez. O Capitalismo ocidental já não tem os níveis de investimento e de produtividade que têm sido a força motriz ao longo de 70 anos, oportunamente alimentados com duas guerras mundiais que têm favorecido a "destruição criativa" necessária.

Neste declínio fisiológico, ligado também ao facto de que as sociedades pós-industriais estão agora concentradas nos serviços (muito menos produtivos), encontramos um constante envelhecimento da população, com conhecidos efeitos sobre o custo global da vida social.

Enquanto isso, o enorme apetite pela energia dum sistema que pressupõe um desenvolvimento infinito estabeleceu um círculo vicioso de consumo de energia, custo de matérias-primas agrícolas (alimentos) e destruição dos recursos primários terrestres (ar, água, solo) com enormes custos que estão a ser considerado apenas nos últimos vinte anos.

Já enfrentámos estes assuntos muitas vezes; o que importa reter é que o modelo do Capitalismo ocidental, com a sua globalização, apresenta limites materiais inevitáveis. Isso para não mencionar o sistema de vida que impõe desigualdade e exploração humana.

Os dados de fundo não mudaram apesar da profunda crise. O sistema operacional não mudou, de modo que a especulação financeira está outra vez em marcha, o que demonstra como nada foi feito neste período de crise dramática para regular o mercado, limitar os instrumentos especulativos mais perigosos e sem escrúpulos.

Essa impressionante inércia acerca dum ponto focal da crise confirma a posição passiva do poder político face o homologo económico. Mais uma vez: quem manda não é a política mas a economia. Muitas vezes este blog limita-se a apresentar pontos de vista, deixando que seja o Leitor a escolher a sua visão; mas neste sentido não, Informação Incorrecta é peremptória: a politica morreu, quem dita as regras do jogo é unicamente a economia E quem não entender este ponto, vive num mundo feito de pura ilusão.

Pior: cada vez mais a politica é vista como um fardo, a nossa percepção acerca da classe dos "democraticamente" eleitos é negativa. O que é justo, sendo muitas vezes uma elite de privilegiados que descuidam o interesse da comunidade.
 
Todavia este é um jogo perigoso. A perda de legitimidade da política abre as portas a outro tipo de sociedade, dominada pela tecnocracia, longe das ideias de Pátria, do senso de comunidade nacional.
E assim chegamos até a terceira vaga.


A terceira vaga
A primeira vaga (2007-2008) trouxe pobreza e desemprego nos Estados Unidos, espalhando-se a seguir para a Europa. A segundo vaga (2011) atingiu duramente com profundos efeitos sobre milhões de Europeus, efeitos que vão ser notado de forma clara ao longo dos próximos meses.

Se, como acreditamos, as medidas adoptadas até agora foram usadas apenas para ganhar tempo e não atingiram a base do problema, então devemos esperar a inevitável terceira vaga. Que será pior do que as anteriores, porque estamos a falar da superfície real da bolha que continua a crescer, disfarçada, no seio da finança internacional: falamos das perdas, das enormes perdas provocadas por uma riqueza virtual que não tem bases no mundo real. Será a inevitável reconciliação da riqueza virtual com a riqueza real, algo de doloroso mas que terá de ser feito para que o sistema possa continuar a funcionar (ou melhor: para que seja possível sair do actual impasse).

A terceira vaga é a altura em que os jogadores deste gigantesco poker são obrigados a mostrar as cartas.

Dolorosa porquê? Porque perder todas as próprias poupança com a falência dum banco não é nada simpático. Porque perder o lugar de trabalho na empresa falida por ter apostado em investimentos "vazios" não é engraçado. A queda (ou a reestruturação) da economia virtual terá pesadas consequências na economia real. A mesma instituição da moeda pode ser posta em causa. E há também, claro, uma questão social que fica em aberto: serviços? Trabalhos? Direitos adquiridos? Estas são as questões trazida pela terceira vaga.
 
Nada disso é novidade, tudo já aconteceu antes: como no final do XIX século. Com algumas diferenças, entre as quais não podemos esquecer a inadequação das actuais classes políticas, dos tecnocratas, dos partidos dominantes, dos produtos intelectuais das nossas universidades.

Vai ser engraçado. E preciso, pois o impasse não pode ser eterno, tal como o utópico crescimento.

Ipse dixit.

Fontes: Clarissa, Wikipedia, Investire Oggi, TradingNoStop
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publicado por surfandonoassude às 15:34
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