Sexta-feira, 11 de Maio de 2012

O FUTURO DOS ESTADOS UNIDOS (2012 à 2016)


O Futuro dos Estados Unidos / 2012-2016 (parte 3) – A decomposição do tecido sócio-político estadunidense
El Futuro de Estados Unidos / 2012-2016 (parte 4) - Cinco propuestas estratégicas para modernizar el sistema institucional estadounidense
                                     Fragmento de GEAB Nº 60 (17 de dezembro de 2011)


A deterioração do tecido sócio-econômico e sócio-político dos Estados Unidos é um fenômeno que começou há quarenta anos. Nos GEABs precedentes, destacamos a importância da quebra, em torno dos anos 1970, da dinâmica estadunidense: final da conexão fixa entre o Dólar e o ouro, a derrota na guerra do Vietnam, o “impeachment” do presidente Nixon, último período das grandes invenções/aventuras científicas estadunidenses (conquista espacial, internet, ...), etc...

Evolución comparada de las inversiones de EEUU en equipos y software y del empleo (1960-2011) - Fuente: ZeroHedge, 11/2011
Desempenho comparativo de investimentos dos EEUU em equipamentos e software e de emprego (1960-2011) – Fonte: ZeroHedge, 11/2011
Um aspecto particular que nos parece de importância estratégica e crucial para o próximo período: é o colapso do sistema educativo (1). Para simplificar, o LEAP/e2020 estima que a mudança durante os anos 1970 a um sistema educativo baseado na avaliação dos estudantes através das perguntas de opção múltipla (em inglês MQC o multiple choice questions), desde o ensino fundamental até a universidade, gerou uma debilidade absoluta e persistente na formação de gerações de estadunidenses hoje com uma idade menor de 40 anos.


Ainda que tenha firmado um sistema educativo de dois níveis, ampliando cada vez mais a brecha entre a elite social do país e a classe média, devido aos crescentes custos de acesso a uma educação de qualidade. Por último, a absoluta comercialização (2) combinada com a educação a distância ou no lugar, tem aplicado um golpe fatal a qualquer requisito geral de consistência e qualidade no sistema educativo estadunidense.


Geralmente, sem ser responsáveis pela situação, nos Estados Unidos, os menores de quarenta anos estão muito menos educados e menos integrados (4) socialmente que seus maiores. Isto tem conseqüências, naturalmente, em suas “possibilidades profissionais”, em sua capacidade para atuar em um mundo onde a globalização está em todas as partes e requer conhecimentos variados (por exemplo, idiomas, história e geografia), em sua capacidade para conectar com a realidade as propostas sobre a re-industrialização do país ou da necessidade de abordar os desafios científicos e tecnológicos do país (6), inclusive em suas capacidades militares (7). Também gera uma diminuição da qualidade de vida democrática e do discurso político porque os cidadãos são menos capazes de distinguir entre a mentira e a verdade, entre a informação e a manipulação, entre a competência e a demagogia (8).


As primárias republicanas para a eleição presidencial de 2012 é matéria de estudo, tal como indica Marc Pitzke na Spiegel de 01/12/2011 com o título, a propósito dos candidatos em disputa: “um clube de mentirosos, demagogos e ignorantes”. É pouco provável que de tal “clube” teriam saído candidatos, para uma primária de ambos partidos, há trinta ou quarenta anos. A degradação da estrutura democrática e política do país vai por bom caminho, sobretudo porque esta “dês-educação” generalizada se iniciou na década de 1970.


Este processo, juntamente com o impacto desigual da atual depressão que, como toda crise, afeta com mais intensidade os mais débeis, aumenta rapidamente a fragmentação da identidade da população dos Estados Unidos. A ilusão de que a eleição de um presidente negro nos Estados Unidos ajudaria a integração dos afro-estadunidenses se dissipou rapidamente. A crise mostra, por outro lado, que os negros e os latinos são os mais afetados.


Se os afro-estadunidenses parecem iniciar um retorno a seus “territórios históricos” de sul do país (10), os latinos, continuam tomando o controle de toda a parte sudoeste. Nesta zona, agora se assiste a uma verdadeira guerra em que os narcotraficantes são os vetores. A ambos os lados da fronteira mexicana-estadunidense, o assassinato, a corrupção, o tráfico está crescendo, reforçando os reflexos de identidade de uns e outros; no que pressiona para a adoção de leis cada vez mais duras contra os imigrantes ilegais.


A redução da quantidade de empregos disponíveis gera uma verdadeira guerra por “trabalhos” entre as diferentes comunidades. Se o tecido sócio-político se degrada, é também a causa do colapso da qualidade das infra-estruturas do país (11): pontes, estradas, vias férreas, aeroportos, diques, represas, centrais nucleares, oleodutos, são necessários mais de dois milhos de USD para repará-los (sem novos investimentos) (12). Todo o mundo sabe que esse orçamento é impossível de conseguir de um congresso bloqueado e de um orçamento ultra-deficitário. Esta situação tampouco é nova, e como sempre, o simples transcorrer do tempo, não o corrige, ao contrário.

Evolução das vendas de casas individuais nos Estados Unidos (1960-2011) (em milhares) Fontes: FRED / US Depto of Comerce, 11/2011
Desde 2006, o LEAP/E2020 vem pondo em relevo a desastrosa situação das infra-estruturas e suas gravíssimas conseqüências à médio prazo para a economia e o tecido social do país. Passaram seis anos, em 2016 serão dez anos: tempo suficiente para que as pontes em mal estado desmoronem e os oleodutos com vazamentos explodam. As pessoas tendem a acostumarem-se ao mal estado das coisas, crendo, pouco a pouco, que é seu estado normal, até o dia em que se rompem completamente. Em matéria de infra-estruturas, consideramos que o período 2012-1016 se experimentará essa situação.


Tensões inter-comunitárias, deterioração dos laços sociais, demagogia política, massiva “deseducação”, ausência de empregos, aumento rápido da pobreza (13), ...tudo que conduz a uma evolução muito previsível que caracterizou as vendas de “Black Friday” (Sexta-feira Negra) de 2011: não só as imagens mostraram ao mundo inteiro um nível aberrante de violência para o que se considerou um dia de saldos (mortos, tiros de arma de fogo, brigas, distúrbios,...) (14), mas, acima de tudo, esta “Sexta-feira 2011” foi notável porque um dos produtos que experimentou o maior aumento de vendas com relação a 2010 (+32% (15)) foram as armas de fogo.


Qual é o significado deste fenômeno em um país que já tem mais de 200 milhões de armas de fogo em circulação? Segundo o LEAP/E 2020, é um sinal a mais que a população estadunidense se prepara para o pior (16), e que se prepara cada vez mais (17). Em matéria de psicologia coletiva, existem fenômenos que se realimentam. O temor de que a crise evolua para a violência é alimentada com os cortes orçamentários nas forças policiais e o sentimento que o aumento do número de pobres vá constituir uma ameaça crescente para os ricos (18).


Já discutimos o impacto social da nova série de quebras bancárias de 2012. Assim, a partir de 2013, consideramos que este período de violência não controlada precipitará a causa do conjunto de situações apresentadas nesta antecipação. O que a sua vez será parte dos argumentos para buscar a um “salvador” capaz de restaurar a lei e a ordem: um “Xerife-geral”.


Para concluir, não examinaremos aqui a situação geopolítica dos Estados Unidos para este período. NO GEAB nº 59 já antecipamos a retirada militar estadunidense da Europa continental para 2017 adicionando várias análises sobre a evolução de sua presença militar no mundo. Recordamos que nos antecipamos que os Estados Unidos iniciem um conflito maior num período em questão, não tendo mais os meios políticos, orçamentários, diplomáticos e finalmente tampouco militares para lançar-se a tal aventura. Assim como não antecipamos uma agressão direta contra os Estados Unidos proveniente de um Estado, esta opção nos parece não pertinente para antecipar os acontecimentos do período 2012-2016.


Isto não impedirá “colisões”, as vezes violentas, entre os Estados Unidos e países como Iran (19), China, Rússia, ...embora que pareça de natureza infra-conflitiva (ataques cibernéticos, espionagens, sabotagens, ...). A tentativa atual da administração Obama de ativar uma mini Guerra fria com a China (20) fracassará por duas razões:


. tem uma intenção eleitoreira, para dar a imprensão de estadista a Obama, em vista das eleições de 2012 (21);

. um país totalmente insolvente que “ameaça o seus banqueiros” (além do mais, banqueiros bem armados) não pode ir muito longe.

Evolução comparada das exportações de petróleo venezuelano aos Estados Unidos e a China (em milhões de barris por dia) – Fonte: Wall Street Journal, 11/2011


Last but not least (por último mas não menos importante), consideramos que durante o período 2013-2015 é possível que a ordem institucional dos Estados Unidos se veja desestabilizada pelos acontecimentos. As tensões internas, as pressões externas e o nível de desconfiança e inclusive de ódio entre as diferentes comunidades (étnicas, sociais, religiosas, ...) tornará mais difícel a marcha do processo inventado há mais de 200 anos pelos pais fundadores. Juntamente com o Reino Unido e França, os Estados Unidos está entre os países com o sistema político e institucional mais antigo em funcionamento. Este fato, longe de ser um sinal de vitalidade, em tempos de grande transição histórica, é certamente mais um obstáculo, ao ser portador de obsolescência (22).


Por outra parte, desde há aproximadamente dois anos está aberto o debate sobre sua Constituição. Antes era antes um tema tabu: a Constituição, texto sagrado, não era questionável, exceto que seja “anti-estadunidense”. Hoje, seja para voltar ao espírito dos fundadores ou a letra do texto, ambos considerados perdidos (particularmente é a tese do TP), ou, ao contrário, para adapta-la ao século XXI (tese mais esquesdista, tendência de OWS), o debate existe. E nas conversações privadas, esse tema, incrível há somente três ou quatro anos, tem adquirido direito de cidadania.

A médio e longo prazo, é uma boa coisa permitir evolução e a adaptação do país (23); mas a curto prazo, traduz o desconcerto crecente da opinião pública e a fragilidade, que sempre é mais perigosa, das elites do poder. Esta combinação é tradicionalmente propícia a revisões da ordem institucional, com possibilidade de graves choques que afetam a psique coletiva. E como já antecipamos, não vão faltar choques nos próximos cinco anos; em um país insolvente e ingovernável.

Notas:

(1) Fonte: NPR, 16/03/2010
(2) A qualidade dos diplomas não tem nenhum tipo de controle sério. Fonte: New York Times, 22/11/2011
(3) E quanto as “universidades de elite” e o eterno argumento de que são as melhores do mundo, nós lhes reenviamos nossa antecipação de 2007 publicada no GEAB nº 18: “Valor dos diplomas universitários internacionais: Como escolher hoje para ter um diploma internacional válido de dez a vinte anos?”. Quatro anos mais tarde, esta análise nos parece que ter ganho mais credibilidade.
(4) Esta situação engloba dois aspectos: os menos favorecidos mas que agora incluem a maior parte da classe média, que se encontra com crescente dificuldade para poder ascender a seus filhos às melhores universidades. Este fenômeno tem aumentado, evidentemente, pela crise que faz que os valores das matrículas aumentem enquanto os ingressos baixam.
(5) O aumento do poder do criacionismo é outro exemplo.
(6) A queda das formações científica e técnica a favor dos setores das finanças, do direito ou da gestão vão em sentido contrário dos discursos oficiais.
(7) Temos visto no Iraque o que pode resultar de uma tropa (e líderes) sem o conhecimento da cultura de um país e da complexidade de uma sociedade estrangeira. A conseqüência é que os estadunidenses deixam o Iraque sendo percebidos essencialmente como ocupantes e não como libertadores: isto obrigou a saída da totalidade das tropas estadunidenses. E a má gestão da aventura do Iraque deixa marcas negativas e permanentes em todo o Oriente Médio, uma região de importância estratégica para Washington. Fonte : Washington Post, 12/12/1011.
(8) Como observa Andy Xie em um excelente artigo de Caixin de 09/12/2011, o sistema estadunidense reforça há várias décadas de privilégios abusivos de certas categorias em detrimento do interesse coletivo.
(9) Fonte: New Youk Times, 28/11/2011
(10) Fonte: New York Times, 24/03/2011
(11) A educação é também uma infra-estrutura.
(12) Fonte: Grenbiz, 19/05/2011
(13) Fonte: New York Times, 18/11/2011
(14) Fonte: MSNBC, 25/11/2011
(15) E todavia é possível que esta cifra alcance a +50% porque a quantidade de vendas não foram contabilizadas na espera da aprovação da administração competente.
(16) Fonte: Guardian, 15/12/2011
(17) Já que as vendas de armas está subindo desde o princípio da crise.
(18) Também se realimenta com a queda do emprego um êxodo crescente de americanos para o estrangeiro.
(19) Em 2016, os Estados Unidos será levado a rever sua aliança incondicional com Israel. Por um lado, porque o TP e o OWS concordam sobre este ponto, querendo reduzir drasticamente o orçamento militar e rejeitando a intervenção externa; por outro, porque ao fim do monopólio do dólar com respeito ao preço das matérias primas, e consequentemente do petróleo, haverá o custo desta aliança incondicional demasiado elevado para Washington.
Fontes: William Pfaff, 22/11/2011; People’s Daily, 01/12/2011
(21) O nome do futuro presidente dos Estados Unidos tem pouca importância porque será um presidente paralisado, em realidade será uma simples transição com um fundo de caos. As personalidades em disputa ilustram bem a situação: Obama de quem todo o mundo, incluindo seus seguidores, pode comprovar sua falta de envergadura e vontade política; Mitt Romney que nem sequer os republicanos (sobretudo os TP) não sabem que pensar e Newt Gingrich, que é um demagogo completo que não convence. Os três são de todos os modos, a expressão dos poderes de Wall Street e Washington, selecionados porque são controláveis e consequentemente sem importância em épocas de crise grave. Fontes: Reason, 12/09/2011

(22) Vemos como o Reino Unido está se desarticulando ao chocar-se de frente com o soberano continental emergente que é a Eurolândia: a coalizão à beira da quebra e sobretudo ameaças reforçadas com separatismo formuladas pelos dirigentes escoceses e gauleses (fontes: Scottish TV, 12/12/2012; Wales Online, 07/12/2011). E Franck Biacheri na versão francesa de seu livro “Crise global: caminhos para o mundo de amanhã” (em torno de trinta páginas que não figura nas versões em outras línguas). Ele antecipa uma crise mayor do sistema institucional francês daqui a 2020, no mais tardar; se o Estado não é capaz de “romper com seu centralismo parisiense” e se “policentra” utilizando as metrópoles regionais do país. Uma maioria crescente de franceses já não reconhece as elites parisienses no poder real, cada vez mais débil (a causa da integração européia). A legitimidade de decidir o que é França e o que querem os franceses; tudo isso com um custo cada vez menos suportável. E que o modelo herdado da Revolução e do Império (fim do século XVIII como a Constituição dos Estados Unidos) chega ao fim com um choque violento de um mundo que a crise fez mudar em alta velocidade.


(23) Nossa equipe, ainda que essencialmente européia, se permite sugerir cursos de desenvolvimento constitucional nas recomendações; particularmente porque, durante os últimos meses, muitos subscritores americanos nos pediram que façamos.

Mardi 10 Avril 2012

LEAP/E2020 Lu 1474 fois
 
FONTE/LINK(s): GlobalEurope Anticipation Bulletin
Leia também (em Espanhol): El Futuro de Estados Unidos / 2012-2016 (parte 1): Estados Unidos insolvente e ingobernable;
El Futuro de Estados Unidos / 2012-2016 (parte 2) - La infernal espiral económica estadounidense: recesión/depresión/inflación e
El Futuro de Estados Unidos / 2012-2016 (parte 4) - Cinco propuestas estratégicas para modernizar el sistema institucional estadounidense

publicado por surfandonoassude às 20:48
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